No ciclo de mutabilidade, o VENTO SOLAR revela a potência do desconhecido, desde o futuro mais desejado ao mais temido. Por meio de uma exposição ao sol e ao vento, os autores são visionários e criam maneiras de entender ou enquadrar coisas que, à primeira vista, parecem do outro mundo, impossíveis ou irracionais. Aqui a Fotografia continua a ser a linguagem na melhor posição para registrar todas as viradas que lembram que o mundo está mudando, bem diante dos nossos olhos.
AO SOL E AO VENTO
ÂNGELA BERLINDE
Artista e Curadora
Temos de aceitar este difícil fato:
A fotografia, desde o início, nunca foi inocente. Podemos ter sido um pouco ingênuos ao confiar nos antigos conceitos de objetividade e transparência, ou na ideia de que a fotografia sempre conta a verdade absoluta e inquestionável. No entanto, as “pós-verdades” com as quais somos forçados a lidar hoje podem ser muito confusas e muitas vezes enganosas. Como lidar com essa incerteza? Isso fica claro quando se olha para o trabalho dos autores aqui apresentados, muitas vezes mostrando interpretações coloridas desta zona cinzenta.
Todos eles contribuem para o espaço indeterminado em que estamos vivendo. Entre o fato e a ficção, há um mundo maravilhoso de infinitas possibilidades, e a fotografia é o meio ideal para explorar este domínio.
Nesta edição dedicada ao tema do abismo, decidimos refletir sobre o ato de ver e acreditar através de mitos, contos e visões. Por meio de uma exposição de rua, e ao sol e ao vento, os autores são visionários e criam maneiras de entender ou enquadrar coisas que à primeira vista parecem do outro mundo, impossíveis ou irracionais. O modo plural do ato de ver que os diversos autores aqui reunidos exploram, sendo em si mesmo um signo de riqueza e da diversidade que as diferentes culturas engendram, tornam esta seleção uma experiência reveladora sobre o ato de ver e acreditar.
JOAN FONTCUBERTA (Barcelona, 1955), o mago da ficção fotográfica, apresenta-nos a série Desconstruíndo Osama, revelando as fotografias controversas distribuídas após os atentados do atentado de 11 de setembro, que mostram as diferentes facetas de Dr. Fasqiyta-Ul Junat, considerado o mentor da operação militar Al Qaeda.
Ao longo do seu percurso, Fontcuberta tem vindo a estabelecer sistemas para gerar traços convincentes de algo inexistente, analisando e testando os mecanismos sociais de persuasão e credibilidade.
Artista, autor, iconoclasta e provocador, Joan Fontcuberta brinca com a fotografia, a mídia e a autenticidade desde os anos 1970, quando se formou na Universidad Autónoma de Barcelona, onde foi professor na Facultad de Bellas Artes. Fundador da revista Photovision, uma das mais marcantes na história contemporânea, é autor de vários livros, nos quais propõe que o mundo real seja substituído por um fictício, onde só existem aparências, e discute a chamada realidade da imagem fotográfica.
A obra de Fontcuberta vive para lá deste deslumbramento inicial com a sua capacidade criativa – de outro modo não teria ganho, o galardão da Fundação Hasselblad, o prémio mais importante do mundo para a fotografia.
O que faz de Joan Fontcuberta uma figura tão eficaz e envolvente é a sua inteligência afiada, seu humor mordaz e sua técnica perfeita, com a qual ele funde todas as suas elaboradas provocações. Com Joan Fontcuberta, nada é sagrado e tudo é alvo de investigação contundente. Ele abala desde a imprensa às investigações científicas, desde os avanços tecnológicos ao mundo da arte e da religião, da ciência à propaganda política e governamental. É difícil simplesmente caracterizar o seu trabalho, porque ele continua a surpreender, confundir e a divertir-se com um conjunto de técnicas e abordagens em constante evolução.
Com efeito, hoje imagens e processos automatizados dificultam a visualização de imagens antigas. Por um lado, para alguns, isso cria nostalgia de um formato que eles nunca tiveram, enquanto, para outros, apresenta um meio de atualizar nossa visão da vida contemporânea. Exemplo disso surge-nos com a série Traces da artista polonesa WERONIKA GESICKA (Polônia, 1984), que se baseia em fotografias antigas e encontradas num banco de imagens. Cenas de família, lembranças de férias e momentos cotidianos são suspensos em algum lugar entre a verdade e a ficção. Da busca consciente à descoberta coincidente, está tudo aqui: os muitos elementos da fotografia que sempre foram negligenciados ou esquecidos. Essas imagens estão envoltas num novo contexto: nossas lembranças dessas pessoas e situações tornam-se gradualmente uma nova realidade.
Na eminência da digitalização do mundo, uma nostalgia por objetos e natureza reaparece, seja em ambientes digitais ou em ambientes físicos. Várias perspectivas de ver o mundo se sobrepõem.
VANJA BUCAN (Eslovênia, 1973), em Sequências de verdade e decepção, brinca com o nosso amor exótico e condicional pela natureza. As plantas de Vanja, uma vez tocadas por mãos humanas, tornam-se protagonistas da interpretação do Antropoceno. A sua maneira de lidar com a informação transborda o meio fotográfico e a comunicação enganosa é o segmento subjacente desta série.
NOBUKHO NQABA (África do Sul, 1992), em Unomgcana, levanta questões sobre a migração e seu efeito sobre a interação humana. A autora está interessada em saber o que está acontecendo com os movimentos migratórios e como isso afeta o contexto mundial. O novo corpo de trabalho de Nqaba, Ndiyayekelela, incorpora a luta do país para chegar a um acordo com a perda de seu pai. Usando materiais simbólicos que remetem ao seu passado, Nqaba tem sentimentos de culpa, raiva e confusão, reforçando a sua presença física. Os movimentos do ar, juntamente com os materiais cuidadosamente selecionados, evocam memórias antigas, trazendo-as à vida através da fotografia.
No ciclo de mutabilidade, esta seleção promove a compreensão de como os artistas lidam com a potência do desconhecido, do futuro mais desejado ao mais temido. Todos estes campos, solicitados na urgência das forças que movem o tempo presente com suas densidades e complexidades, podem tornar-se estratégias de aproximação, reflexão e crítica, ampliando suas formas de compreensão para revelar modos de estar e habitar criticamente o mundo. Aqui a fotografia continua a ser a linguagem em melhor posição para registrar todas as viradas que nos lembram que o mundo está mudando, bem diante dos nossos olhos.
A CURADORA
Ângela Berlinde é curadora e investigadora com Doutoramento em Comunicação Visual pela Universidade do Minho em Portugal em colaboração com a Universidade Federal do Rio de Janeiro e Mestrado em Fotografia Digital, pela Utrecht School of Arts-Holanda. É diretora artística de projetos culturais em Portugal e no Brasil, tendo publicado obras sobre a Índia portuguesa e sobre os Retratos Pintados do Brasil. É co-Fundadora do Festival português de Braga, tendo sido diretora e curadora das exposições nele integradas na última década. É professora adjunta na Escola Superior de Media Artes e Design do IP.Porto em Portugal e atua no domínio de investigação sobre as formas híbridas da fotografia. Foi uma das curadoras convidadas da PhotoBiennial de Beijing 2018 na China e integra desde 2017 o Conselho de Curadores do Museu da Fotografia de Fortaleza. Atualmente é consultora e diretora artística para a área da Fotografia junto da Secretaria de Estado da cultura do Ceará, Brasil.