Um filme. Um livro. Uma exposição. A carne treme. A terra treme. Há Terra em Transe. Violência e paixão: onde está o meu rosto? Quem matou o meu filho? Amor? Amor só de mãe.A imagem alucina. A fotografia está com os dias contados. A carne treme. Há Terra em Transe. A bomba relógio vai explodir.
A GARGANTA DAS COISAS
DIÓGENES MOURA
Escritor e Curador de Fotografia
Dia 26 de setembro de 1929. A família unida e feliz que aparece na fotografia realizada no final do Século XIX alugou dois garotos negros para servir de mascote e “ilustrar” a cena muda. Até o padre aparece na imagem, possivelmente em nome de Deus, mergulhado em seu mundo de perversidade e mentiras. As crianças aos pés de todos eles. Em preto e branco, a mancha fotográfica reverbera até hoje em nosso mundo cotidiano. Quantos séculos precisaremos para “resolver” a Lei Áurea? A cada 23 minutos um jovem negro é assassinado no Brasil. A polícia organiza e mata pela cor da pele. A sociedade sente menos a morte de um negro do que a morte de um branco. A humanidade, desde a noite dos tempos, costuma sentir muito pouca coisa pelo outro, preocupada que está em alimentar o seu câncer existencial. Isso, desde muito antes das três quedas de Cristo e do julgamento de Sócrates. Os dois meninos “mascotes” alugados pela família e seus amigos que aparecem no postal olham para a câmera e já estão simbolicamente mortos. Não fazem parte nem da paisagem. No verso do postal está escrito: “Os pretinhos custaram $500 para ficar de ‘mascote’.” Enquanto por aqui os resquícios das mulatas que “brotam cheias de calor” e a televisão fecha a câmera nas entranhas de cada uma delas (silicone industrial, samba, suor e cerveja), a conta da ditadura militar também não fecha. Entre os dois negrinhos alugados e o ano de 1968, as ondas viraram e desviraram o barco da nossa existência até a polícia invadir o restaurante Calabouço, no Rio de Janeiro, e matar com um tiro a queima roupa no peito o estudante Edson Luiz de Lima Souto. Corte seco: Exu se desespera. As esquinas acordam. Navalha na carne, o povo vai para as ruas e 100 mil corpos gritam, sofrem e sangram. Surge o chamado AI-5. A bomba do Rio Center explode. O papagaio verde e amarelo é depenado. As freiras, nos pátios dos colégios, cortam as cabeças dos pombos. Os senadores biônicos dizem “sim”. Do lado de cá da cidade, um prefeito imbecil manda tanger o povo do crack. No centro da praça eles se erguem, apagam os cachimbos e saem destruindo tudo o que encontram pela frente: as certidões de nascimento, os preservativos vencidos, os fios de telefones terra abaixo, as bancas de revistas, as vitrines das padarias onde as tortas de chocolate giram sem parar, o supermercado do homem chinês que vende tanajuras fritas acompanhadas por um saquinho de farofa dormida. Do outro lado de lá, a cidade agoniza mais uma vez e, como numa grande ceia, está posta. Quem recolherá os entulhos dos nossos dias? Quem protegerá cada história impressa nas paredes, nas empenas dos prédios, nos quartinhos embutidos onde homens e mulheres e homens e homens e mulheres e mulheres trocam líquidos fodendo como um pseudo-linguista sem coragem de pronunciar “eu te amo”? Ela mesma, a cidade que escorre como água embrulhada entre os dedos dos seus próprios filhos. Frágil, muito mais frágil dos que os nossos olhos mareados de violência e paixão, de uma coisa atrás da outra, mareados pelo som de um verso que precisa ser ouvido, mareados diante da vastidão dos nossos próprios dias sempre à beira. Mareados desde os doze profetas de Aleijadinho até o olhar de Andréa de Maio, que olha e olha para a esquerda do olho da fotógrafa como quem diz, bem baixinho, quase em silêncio: “O que você quer de mim?” Ali, na imagem e na vida real, dentro do carro, ao lado de sua filha (uma cachorrinha peluda), entre os seus dias de vida e morte e noites imensas em um universo paralelo onde a normalidade é sexual. Mareados como a imensa existência de Luana Muniz, que em seu casarão na Lapa acolhia os que caíam, os que tinham fome e HIV, os que nós abandonamos em qualquer calçada porque eles não nos pertencem. E já que a vida é mesmo cruel, um dia Luana Muniz encontrou um padre-risole que aparece na televisão sempre sorrindo e sutilmente perguntou: “O senhor costuma tirar fotos com pecadoras?” Ele a abraçou, também em nome de Deus, fez a foto e se emocionou com a história de “um travesti”. Naquele momento, a fotografia mentiu em público para fingir que somos todos iguais. Depois da foto, Luana aceitou participar de um programa apresentado por uma mulher que vive sorrindo como uma boneca de plástico, com um nome de plástico e que passa os seus dias imitando ser feliz. E então, e mais uma vez então Luana Muniz, imensa com seu falo entre as pernas, a terceira pessoa, ficou famosa, segundo “a mídia”, até morrer, em 2017. O padre-risole faturou bastante como um homem iluminado (essa palavra tétrica), sem preconceitos e que faz o bem. Essa coisa terrível: fazer o bem. Louvado seja o Senhor do Bonfim que Exu não tem tempo para ver televisão. Nem Tia Neiva. Nem Mãe Filhinha. Nem os Cãos de Jacobina. Nem a Pomba Gira Rainha das Almas. Nem Amauri nadando no seco, chão acima, lá no Morro da Conceição. Imagine se o padre-risole tivesse ouvido o barulho da gigantesca onda de óxido de ferro, água e lama acabando com tudo que encontrava pela frente, lá em Bento Rodrigues, município de Mariana, em 2015: a vida, o passado, o rádio, as fotos pinturas, a casa, a Bíblia Sagrada, o camafeu de Oxossi dentro da caixinha, a memória de todo o povoado soterrada como lixo atômico? Imagine se o padre-risole que faz o bem tivesse visto o olhar parado e a lágrima que Maria Jesuína da Costa, a mãe de Ranulfo Enteado dos Santos, não derramou quando abraçou o filho assim que o dia amanheceu, na delegacia, só porque o adolescente havia comprado um revólver no mercado e feito um assalto apenas para se defender e até hoje não sabe se o filho acordou no dia seguinte? É assim, desde antes das três quedas de Cristo. É assim, desde Vidas Secas. Desde Carandiru. É assim desde o julgamento de Sócrates. É assim desde que a terra tremeu pela primeira vez. Todos juntos Brasil adentro entre as balas de AR-15, dos políticos infames em processo de putrefação, das miniaturas de homens públicos querendo roubar o pão que o diabo já amassou, da cueca cheia de bosta e dinheiro, da floresta que nos cabe inteiro, dos caboclos, das Juremas encantadas, do boto, do Reino de Oxalufã, de Glauber Rocha dente por dente, da poesia como “um saco vazio dentro da alma”, do luxo e do lixo gota por gota, das cicatrizes que não se transferem, do navio negreiro navegando por dentro das nossas veias, do cretino do Papai Noel que todo dezembro insiste em aparecer, do pau de arara até a bichinha digital, do padre-risole que continua sorrindo ao lado da apresentadora de plástico enganando os otários, da facada que elegeu o Presidente da República, do ódio encarnado, do amor Gardenal, do resto de nossas vidas que levaremos para descobrir quem matou nosso filho. É assim em Terra em Transe.
Eu fico.
Motumbá!